Entrevista: Sarah Paulson e Ari Graynor falam sobre interpretar Marcia Clark e Leslie Abramson ao Gold Derby

post por: Eduardo Andrade 19.06.2025

Gold Derby: Sarah, considerando a forma como Monsters se cruzou com o caso O.J., eu fiquei me perguntando se você teria uma participação como Marcia.

Sarah Paulson: Olha, se o Ryan tivesse me ligado e pedido, nada me faria mais feliz. Porque enquanto eu assistia, eu também pensava: “Uau, isso é tão louco, o período em que isso aconteceu.” Duas mulheres em lados opostos do sistema judicial sendo lançadas ao centro dos holofotes — que momento maluco para ambas. Mulheres muito bem-sucedidas, mas que até então não eram figuras públicas, e de repente se tornaram essas pessoas extremamente expostas. Eu adoraria ter feito parte disso, mesmo que só por um segundo. Quando você interpreta uma pessoa real, isso gera um senso de responsabilidade enorme, e você acaba se apaixonando pela pessoa que está interpretando — e isso nunca tinha acontecido comigo até Marcia.

Ari Graynor: Você nunca tinha sentido isso antes da Marcia?

Paulson: Não. Eu literalmente discutia com qualquer um que viesse argumentar comigo antes da série estrear. Depois que foi ao ar, as pessoas reavaliaram suas opiniões sobre a Marcia, graças a Deus. Mas antes, todos queriam falar sobre o que ela tinha feito de errado, onde ela havia falhado. Isso me deixava furiosa. Me incomodava profundamente, porque eu sentia que tinha muito mais informação do que o público médio, já que estávamos imersos na série. A maioria das pessoas estava apenas julgando com base no que viam no noticiário. Isso me deixava com raiva. Eu nunca tinha sentido esse desejo de proteger alguém que eu estivesse interpretando. Foi aquele momento esquisito de atriz em que você não sabe mais onde você termina e onde a personagem começa, porque tudo foi muito imersivo. Foi assim com você?

Graynor: Foi absolutamente assim pra mim. Desde o começo eu senti que ser atriz e ser advogada de defesa não são coisas tão diferentes. O nosso trabalho é defender completamente quem estamos representando, entender como essa pessoa chegou até aqui, quem ela se tornou, com o máximo de detalhes possível e sem julgamento. Eu me apaixonei completamente por ela desde o início. Me senti como a advogada de defesa dela também. Foi sobre entender tudo: o espírito dela, o quanto ela se importava não só com os meninos, mas com o sistema de justiça, e com a crença de que todo mundo merece uma defesa. Que as pessoas não são definidas pelo pior que elas já fizeram. Era sobre entender sua história, sua criação. As primeiras lembranças dela eram do Holocausto, de ver fotos da família e tentar identificar rostos. A avó era sindicalista, o pai a abandonou ainda criança — havia uma força muito genuína e um senso de justiça dentro dela. Até as críticas que ela recebeu por ser “dura” vinham de um lugar muito profundo.

Gold Derby: Como vocês equilibram interpretar uma pessoa real sem transformá-la em uma caricatura?

Graynor: Foi algo que me deu muito medo, porque eu assisti absolutamente tudo, cada detalhe. Era muito importante pra mim honrar o jeito dela, a essência, a cadência, os gestos. Ela não tinha exatamente um sotaque, mas uma maneira muito específica de falar que me pareceu essencial capturar. E ao mesmo tempo precisava ser sutil. Tive medo de as pessoas pensarem: “O que ela está fazendo?” Mas no fim, confiei que, fazendo o mergulho psicológico com base no que havia nos arquivos e no livro dela, e juntando isso à minha própria interpretação, algo verdadeiro surgiria — algo que não fosse apenas uma imitação mecânica.

Paulson: Havia muito material, mas quase tudo era da Marcia pública. Não tinha quase nada sobre como ela era no cotidiano. Então, como calibrar pra honrar esses pequenos momentos? Tipo, quando entro no tribunal com o novo corte de cabelo e o Sterling escreve “Você está linda”. Não tem como saber se isso aconteceu mesmo. Ou o que foi dito no elevador, ou nas salas antes da audiência. Meus momentos favoritos eram os vídeos dela andando pelos corredores do tribunal. Aquilo dizia muito. Ela também escreveu um livro, então pude usar como referência. Mas tem algo mais, uma alquimia, um sentimento de que, por alguma razão inexplicável, eu era a pessoa certa para interpretá-la. Não sei explicar. Não é tangível. Era como se eu a conhecesse — mesmo sem conhecê-la de verdade, e só a encontrando muito tempo depois.

Graynor: É mágico quando isso acontece. Você não está fazendo algo “muito Marcia”, e mesmo assim, olha pra sua imagem e você é ela. Parece uma fotografia.

Paulson: E não é por causa de prótese ou maquiagem, embora as perucas fossem essenciais pra ambas. Tem algo que simplesmente acontece. E, Deus sabe, ela teve muita sorte que foi você.

Gold Derby: Ari, se você pudesse fazer uma pergunta à Leslie Abramson, qual seria?

Graynor: Acho que eu perguntaria como foi pra ela depois do segundo julgamento. Quando tudo acabou e saiu do controle dela, como isso a transformou? Pra mim, essa foi a maior dor da vida dela, só atrás do abandono do pai. Acho que foi profundamente devastador ela não ter conseguido tirar os meninos da prisão. O segundo julgamento foi um desastre em tantos sentidos. E como você segue em frente depois disso, ainda mais com um bebê? A Marcia também passou por momentos pessoais gigantescos durante o julgamento. A Leslie, no primeiro, adotou uma criança, a mãe morreu, e ela reencontrou o pai depois de 35 anos afastados. É muita coisa pra carregar enquanto você enfrenta um caso como aquele. Em muitos sentidos, a bravura dela a protegeu. Mas as pessoas mais duronas geralmente têm os corações mais frágeis. E me pergunto: será que, se um homem dissesse exatamente as mesmas coisas que ela, o resultado teria sido diferente? Não gosto de pensar que sim, mas…

Paulson: Pensando nas redes sociais hoje, me pergunto se haveria mais gente ao lado delas, algum tipo de espaço seguro, mesmo que anônimo. Só o fato de saber que existem vozes a favor. Porque naquela época elas só ouviam ataques — sobre aparência, postura, tudo. E, no fim das contas, não importa o quão forte você seja, é difícil lidar com tanto ódio quando tudo o que você quer é fazer bem seu trabalho. Qualquer pessoa no lugar delas, homem ou mulher, teria tentado dar o seu melhor. E ainda assim, elas tiveram que enfrentar tudo isso com a vida pessoal em colapso e sem nenhum porto seguro. É extremamente solitário. Até hoje me pergunto como a Marcia conseguiu aguentar tudo. E gostaria que ela nunca tivesse passado por aquilo, sinceramente.

Gold Derby: O que significou para vocês fazer parte de algo que realmente mudou a conversa nacional?

Paulson: Posso dizer com sinceridade que não entrei nesse trabalho esperando ou querendo que isso acontecesse. Talvez tenha funcionado justamente por isso. Eu só queria contar a verdade da melhor forma que eu podia. E acho que isso revelou o lado mais humano da Marcia, em contraste com o que o público pensava dela. É muito poderoso fazer parte disso. Sinto que pude ajudá-la a ter algum tipo de encerramento, e isso é especial. Mas não acho que tenha a ver comigo. Tem a ver com o público estar pronto para ouvir a história de novo, de uma forma honesta. E fico imensamente feliz por ter tido essa chance.

Graynor: Eu nunca vivi algo parecido. O Ryan tem um senso incrível do momento certo — é como um mágico! É quando criatividade e cultura se alinham. E ver o impacto que a série teve no caso dos Menendez foi impressionante. O mais poderoso pra mim foi poder dar voz não só ao abuso sofrido por eles, mas ao abuso sexual masculino como um todo. Hoje entendemos muito melhor o trauma. E a Leslie já falava disso há 35 anos. Foi incrivelmente poderoso, mesmo sendo algo difícil de assistir. Mas era importante colocar isso no centro da história. E isso, sim, pode mudar corações e mentes.

Gold Derby: O Ryan deu episódios centrais incríveis para vocês — “Marcia, Marcia, Marcia” e o “Episódio 5” de Monsters, que foi chamado de a maior atuação “de costas” da TV.

Paulson: De verdade. Nunca vi nada como aquilo. Eu podia sentir sua emoção só pelas costas. Normalmente isso só acontece olhando nos olhos de alguém. Mas o que você construiu com o Cooper foi tão bonito. Era tipo Smell-o-Vision — quando o cinema liberava cheiros. Tinha algo ali, uma força que vinha de você pelas costas. Parece absurdo, mas é real. É prova da base que você construiu, da sua generosidade como atriz. Foi extraordinário.

Graynor: Tive muito medo daquele episódio. Evitei por um tempo depois da primeira leitura, pela intensidade. Precisei trabalhar muito para conseguir sustentar os meninos emocionalmente durante as cenas, sem desabar. Porque eu só queria sentar e chorar. Mas essa não era a Leslie. Foi uma das experiências artísticas mais puras que já vivi — uma lição sobre escuta e presença. Não ter a câmera no rosto traz uma verdade diferente, sem aquela consciência de que estão te filmando. O que o Cooper estava fazendo era tão poderoso que eu só rezava: “Por favor, que eu consiga estar presente e não atrapalhar.” Foi um presente que vou carregar pra sempre.

Gold Derby: Ari, a Sarah te deu algum conselho antes de você assumir o papel?

Graynor: Ela disse: “Seu trabalho é proteger a Leslie. Você está lá por ela, e é só isso que importa.” Eu sabia que tinha ganhado na loteria com esse papel. Sabia o quão especial era essa chance. Só não queria estragar tudo — por ela, pelo Ryan, por mim.

Paulson: Quando você entra em algo já sabendo o que veio antes, pode ser muito intimidador. Mas o importante é manter o foco, contar a história, não pensar nas consequências, na recepção, no que vão achar. Isso não é da nossa conta. O trabalho está ali pra ser feito. Se você tem a sorte de poder contar a história de alguém, só precisa abaixar a cabeça e correr até a linha de chegada.

Gold Derby: Ari, isso significa que você agora faz parte oficialmente da trupe de atores do Ryan Murphy?

Graynor: Sim, sim! Acho que não posso falar muito, mas estou muito feliz em dizer que agora faço parte da trupe. Tem coisas secretas e muito legais vindo aí. Só posso agradecer ao Ryan Murphy.

Paulson: Eu devo tudo a ele. Já tinha feito coisas das quais me orgulhava antes de trabalhar com ele, e também fiz coisas das quais me orgulho depois, sem ele. Mas o coração de tudo isso é o fato de que ele acreditou em mim. Ele me disse “sim”, me deu oportunidades, me jogou a bola. Repetidamente. E isso me fez uma pessoa capaz de acreditar em si mesma. Foi um presente lindo em muitos níveis.

Entrevista originalmente publicada em inglês por Gold Derby. Você pode conferir o artigo completo em:

The case of Leslie Abramson vs. Marcia Clark: Ari Graynor and Sarah Paulson on ‘defending’ their characters